sábado, 14 de abril de 2012

O Que a Bíblia Realmente Diz Sobre a Homossexualidade - Daniel A. Helminiak

“Precisar ter medo dos próprios sentimentos sexuais significa restringir a mais nobre das possibilidades humanas, o amor. Significa anular a espontaneidade humana em uma ampla gama de expressões – criatividade, motivação, paixão, compromisso, realizações heróicas. Significa ter medo de nosso próprio e mais profundo eu... Portanto, precisar escolher entre religião e sexualidade significa ter de optar, de uma maneira profunda e importante, entre a religião e a si próprio. Da maneira como entendemos a questão hoje, isso significa ter de escolher entre Deus e a integridade humana – Daniel A. Helminiak”.
Há dias comprei o livro “O que a Bíblia realmente diz sobre a Homossexualidade” e foi muito esclarecedor. Parece que, por causa do preconceito que Homossexuais sofrem por causa de religiosos, os mesmos decidiram entender realmente o que diz a Bíblia. Isso não precisava nem de estudos, não só Homossexuais, mas outros sofrem por causa de preconceito bíblico.
O psicólogo Helminiak envereda por um assunto complicado e por todo livro vai explicando e mostrando que todos entenderam errado! Que não há preconceito na Bíblia, tudo mal entendido. Falemos sobre esta estranha defesa, que embora esteja baseada em bons argumentos, ainda não melhoram a situação.
Tenham para si que a História de Sodoma e Gomorra não falava sobre Homossexualismo, mas sobre depravação; toda cidade foi destruída porque homens eram depravados e nada hospitaleiros... Tudo bem, queremos um mundo de pessoas dignas que respeitam todos, mas mesmo que expliquemos a Bíblia à favor dos Homossexuais para adaptarmos aos novos tempos, não é válido o argumento de hospitalidade; sabemos do mundo violento que vivemos, quem aqui daria abrigo ao mais desconhecido que fosse? Sei que é um erro esta falta de confiança que temos, mas evidências nos mostram que não devemos dar abrigo aos desconhecidos, quanta criminalidade existe? É pena que tenhamos que viver trancafiados dentro de nossas casas, mas isentando os homossexuais do castigo divino (o que é válido) acabam empurrando a culpa para os que não abrigam seus semelhantes, abrindo mais o leque dos que vão queimar no inferno.
Isso pode ser pouco comparado ao trecho que vamos analisar logo mais: Levítico.
De acordo com análises de Helminiak, Levítico foi escrito com o único intuito: Mostrar aos Judeus que os mesmos deviam manter sua peculiaridade e não agir como Canaanitas, tudo que Canaanitas faziam era errado, que não devemos trair quem somos e agir como outros. Não tenho intenções de ser irônico, mas se assim fosse, teríamos que matar todos os Cover Artísticos, imitadores e coisas parecidas; o preconceito não está sumindo, apenas mudando de foco. Tudo bem, Canaanitas eram pessoas ruins, matavam e deitavam-se uns com os outros... Por acaso se eu descobrisse que um homem é assassino e gay, teria que condenar a homossexualidade e não apenas o instinto assassino? Acho que não.
Outra alegação é que o Levítico não estaria falando de Homossexualidade, mas de idolatria, do ato de dobrar-se a outro homem, de venerar outro que não Deus. Também não me deixa convencido, uma vez que todo tipo de amor teria que entrar de gaiato neste barco furado; alguns homens também veneram suas esposas ou ficantes, há idolatria maior que transar com alguém? Ou estamos idolatrando o outro ou idolatrando nós mesmos, sempre existe um sentimento de adoração daquele que se entrega ao ato sexual. Teríamos que estar todos queimando no inferno.
Em capítulos posteriores que também condenam o Homossexualismo, eis que Helminiak chega à conclusão que textos sagrados não falam de homossexualidade, mas de masturbação, que esta atitude seria indigna, impura e não recomendada. Agora temos mais um problema, porque a maioria dos jovens em nosso planeta estariam condenados ao inferno. E quer defesa maior contra o estupro do que uma boa punheta, que ainda pode ser altamente saudável e recomendável, como o ato sexual?
As coisas parecem não melhorar. Pelas traduções e estudos aprofundados de Helminiak, o dilema em si está não no significado Homossexual, mas da palavra impuro; não é errado, é apenas sujo e malquisto pela sociedade. “Ainda não estou convencido como gay de que aquilo que faço não é errado e que não tenho que me esconder!” Então sigamos o raciocínio: Tudo bem ser gay, mas tudo bem também as pessoas quererem vomitar ao me verem agindo assim?
“Evitamos alguns comportamentos não porque eles são errados em si, mas simplesmente porque ofendem as pessoas. Enfiar o dedo no nariz, arrotar ou emitir gases são exemplos óbvios – em nossa cultura... O que é tabu não é necessariamente errado; ainda assim, sob determinadas circunstâncias, pode ser errado violar um tabu – Daniel A. Helminiak”.
Em outras palavras, tudo bem ser gay contanto que você não haja como! Estamos entrando numa linha nonsense que vai contra agir como si mesmo; ou seja, se por um lado você está salvo de não ir ao inferno, está negando sua peculiaridade e também merece o inferno; ainda quebra o mandamento “Não dar falso testemunho”, está dando falso testemunho sobre si mesmo. Há quem defenda dizendo que não agir não significa trair sua peculiaridade; novamente trancafiam o homossexual numa pacata vida sem sexo que certamente o mataria de tédio.
Novamente voltamos a Sodoma, que liga à Sodomia, sexo anal... Existe outra maneira do gay transar senão pelo sexo anal? Desculpe, não vejo como. A não ser que os parceiros se contentem com boquetes, mesmo assim seria estranho viver de boquete e punheta, uma vez que punheta está ligado a impureza e também condenável.
Acredito que o livro de Helminiak é necessário para que as igrejas aceitem seus homossexuais e os respeitem, mas se pudesse dar uma dica, pediria aos homossexuais para ficarem longe dela, uma vez que não são lógicas, são falsas. Recentemente assisti ao filme “Milk – A voz da igualdade” onde surgiu a seguinte frase sobre homossexuais, acho que vem à calhar: “Somos como a Igreja católica, acolhemos os excluídos, mas não os fazemos parte do mesmo time”.
Para finalizar, comprei a Nova Bíblia Viva, versão moderna, de fácil acesso e que, independente de estudos mais aprofundados introduz:
“O que o leitor recebe agora, portanto, é uma Bíblia de leitura agradável e fácil entendimento... Está ainda mais fiel aos originais redigidos em hebraico, aramaico e grego... Na Nova Bíblia Viva, sua palavra se torna mais clara que nunca.”
Já vimos que a tal Bíblia se dá credibilidade, diz que podemos ler sem medo de interpretações ruins e ainda diz ser de agradável leitura... Agradável? Não sei aonde, mas vamos ao polêmico trecho em Levítico para vermos se alguma alteração por conta dos novos estudos de interpretação foi feito:
“Se um homem tiver relações sexuais com outro homem (Isto é, praticar Homossexualismo) como quem se deita com uma mulher, ambos terão que ser mortos por causa do ato imoral; eles são responsáveis pela própria morte – Levítico 20:13”.
Por conta da imoralidade e não idolatria ou atitudes Canaanitas. Fecho com Helminiak: “A virtude consiste em viver conforme a razão, e não conforme as emoções ou sentimentos”.

domingo, 1 de abril de 2012

Secreções, Excreções e Desatinos - Rubem Fonseca

Eu não achava que existiam escritores sérios que escrevessem sobre as escatologias da vida, pode ser que eu não conheça nem metade de nossa literatura, mas confesso que fiquei abismado e fascinado. Rubem Fonseca foi a grande surpresa do ano, comprei o livro apenas pela belíssima capa e por saber se tratar de autor renomado, nem pretendia ler imediatamente, deixaria na pilha de livros até o dia certo chegar, mas sabe como é, se estamos com um livro no ônibus e a viagem vai demorar, é quase certeza que a leitura começará... E foi assim, que nas primeiras páginas ele prendeu minha atenção, fazendo com que eu deixasse algumas leituras pendentes e me dedicasse a obra dele.
“Por que Deus, o criador de tudo o que existe no Universo, ao dar existência ao ser humano, ao tirá-lo do Nada, destinou-o a defecar? Teria Deus, ao atribuir-nos essa irrevogável função de transformar em merda tudo o que comemos, revelado sua incapacidade de criar um ser perfeito? Ou sua vontade era essa, fazer-nos assim toscos? Ergo, a merda?” – Rubem Fonseca (Secreções, excreções e desatinos).
Foi identificação à primeira vista, não que eu curta tais assuntos, para falar a verdade nunca vi graça em piadas escatológicas, mas considero a coisa como natural do ser humano, sendo digna de admiração, estudo e fascínio. Durante o livro a gente se depara com questões escatológicas, filosóficas e até religiosas... Tudo envolto, muitas vezes, no amor; amor que o homem sente por outro, englobando também sua podridão.
Se a podridão é poética ou não, não sei; mas definitivamente somos feitos mais de podridões do que “Zebrinhas listradas, Oncinhas pintadas, Coelhinhos peludos” (Titãs)... Pergunto-me onde estaria o limite e se existiria prazer em tudo isso! Há quem sinta prazer em transar com uma mulher menstruada, sendo verdade ou não há boatos ou estudos que indicam que mulheres assim sentem mais prazer. Em minha vulgar caminhada pela vida, escutando comentários igualmente vulgares, não sei se não pertinentes ou se indagações das almas aprisionadas, colegas dizendo que fazer um oral em uma mulher menstruada seria o mesmo que comer pão com molho. Verdade? Só quem pratica para saber... E se quem pratica tira prazer disso o que haveria de errado?
Não sei se Rubem Fonseca estava apenas tirando um sarro quando escreveu o livro, apenas brincando, ou se pretendia fazer realmente do assunto uma coisa séria. O que vem à minha cabeça é que este livro ocupa um lugar em nosso mundo, completa o ser humano. Vivemos procurando pela beleza estética e filosófica, mas sempre externa, e mesmo quando interna é aquela beleza de bondade e ternura, sem saber que há muito mais do que ternura dentro de nós, há gases, flatulências, líquidos viscosos, transpirações, suores, odores, texturas esquisitas, e botamos tudo para fora uma hora ou outra. Parecemos todos criminosos reclusos em nossos banheiros fingindo que algo assim não sairia de nós, até nos chateamos quando na verdade a vida também deveria ser bela tendo estes pequenos detalhes em conta. Quem sabe o homem feliz em sua totalidade não seria aquele que aprendesse a amar também o feio interno? E digo feio no sentido de fluídos corporais.
Assim que este capítulo acabar não tocarei mais no assunto. Cá entre nós, estarei bem comigo mesmo e farei o máximo para estar bem com os fluídos dos outros, porque estar bem com os meus e contrário ao dos outros é no mínimo hipocrisia.
Porque nossas secreções e excreções acabam se tornando desatinos? Porque precisa ser assim? Não podemos todos nos embolar em nossas próprias sujeiras e sermos felizes? Já diziam que a vida é uma merda, então porque não admirar esta merda?

terça-feira, 27 de março de 2012

A Curva do Calombo - Chico Anísio

Há tempos tenho dois livros escritos por Chico Anísio, mas não tinha lido por achar que se tratava de um livro de piadas ou algo assim, mesmo admirando sua carreira como comediante, porém, a grande fatalidade aconteceu, e Chico finalmente tornou-se imortal. Revirei minhas estantes e encontrei “A Curva do Calombo” escrito por este grande homem; qual foi minha surpresa ao perceber que se tratava de um livro de contos, não livro der anedotas e tão pouco contos de humor, achei algo melhor, encontrei contos que mostravam com grande sensibilidade alguns pequenos dilemas do dia-a-dia.
A Curva do Calombo” é o conto que dá nome à coletânea, neste conto encontramos um fragmento sobre um rapaz que ganha uma moto em comemoração a faculdade e resolve, gente boa como é, aventurar-se pelo mundo dos rachas.
Quem abre o livro é o singelo prefácio de Jorge Amado, onde admite que além de humorista, Chico também é ótimo escritor; concordo com ele, e ainda digo que Chico tem capacidade de visualizar pequenos detalhes da vida e passá-los para o papel, não critica, nem dá argumentos contra este ou aquele tipo de pessoa, mas unicamente mostra o que há no mundo, as pessoas que existem e seus pequenos dilemas.
Livro curto com 35 contos, cada conto de 3 a 4 páginas, passa rápido, mas durante este conto, consegue criar um mundo gigantesco, onde personagens nos cativam e todo cenário é construído, um livro sobre vários mundos. A sensibilidade para demonstrar estas diversas histórias é o forte de Chico, talvez esta seja a grande qualidade que ele adquiriu com seu construir de mais de diversos personagens como comediante, capacidade de criar muitos e únicos, com suas peculiaridades, sobre diversas vidas e ocupações. Desde um homossexual enrustido que se larga nos prazeres de outro homem, enquanto finge ser aquilo que não é, até a solidão de uma dona de casa que encontra na polícia um meio de não estar sozinha. Chico é extremamente sensível, não são histórias com uma grande trama acontecendo, são simples e belas, tipo de conto onde a intenção é fotografar uma parcela da vida e mostrar ao leitor, para que este sim crie seus conceitos. Se fossem filmes, certamente seriam filmes alternativos e estrangeiros, tamanha é a sensibilidade do autor.
Contos maravilhosos que passam pelo livro, desde prostitutas de família, até golpes do baú que caem em resultados fascinantes, até mesmo no drama aparentemente sem sentido de um mendigo que simplesmente leva sua vida. Gostaria de focar no conto deste mendigo, onde nada acontece, apenas ele e seu choro misterioso, e a todo momento nos perguntamos porque ele chora, até vermos duas possibilidades, pelas desavenças simples do amor, ou por sua condição, mas confesso que as desavenças do amor são mais fascinantes, porque traz este mendigo para dentro de nosso mundo, afinal, eles fazem pate de nosso mundo.
A ironia de Chico é constante, em um dos contos um oficial interroga um preso por atentado ao pudor, e enquanto caminhamos, podemos ver tanto machismo quanto uma mulher que pediu por isso, é interessante como nosso julgamento e o do oficial mudam, ora damos razão ao bolinador, mas quando o conto chega ao fim, pensamos o contrário, e ao pensar o contrário por breves segundos, nossa hipocrisia cai em nossa cara. Chico, além de criticar muitas atitudes da sociedade, as mostra como inerentes ao homem e de normalidade incrível.
Noutro conto, temos uma babá incompetente que está de paquera, enquanto a criança passeia por uma praça aparentemente inofensiva, enquanto, paralelamente um cão raivoso se aproxima, nossa tensão cresce conforme as duas histórias se chocam. O que encontrei no livro de Chico Anísio foram questões simples e cheias de significados; único pesar foi pela capa do livro que é muito colorida, o que nos leva a crer que se trata de um livro de anedotas, impressão que desaparece com a leitura da primeira página.

Para Comprar: A Curva do Calombo
Mais Informações: Chico Anísio

segunda-feira, 26 de março de 2012

Os Melhores Poemas - Ferreira Gullar

Um dos grandes obstáculos em Ferreira Gullar está em suas desconstruções da poesia, fazendo de seu mundo poético uma grande maratona, onde todos ganham.
O engajamento social é grande referência, cada fase à sua maneira. Toda poesia, ou sua maioria vem das rimas, das quebras de rimas e formatos, metamorfoseando após o concretismo, para alcançar um amálgama de tudo isso nas mais recentes, fazendo dos resultados uma liberdade melódica fluindo pelo desconcerto e sua lógica.
Seja concreto, experimental ou na aparente poesia bem comportada, as bem comportadas são as mais perigosas, grita um povo Brasileiro que não pede ajuda, mostra que de belo nada tem, e de sofrido já é muito.
Parece que quanto mais certinha é sua poesia, maior sua carga de sujeira, maior é o impacto de sua mensagem; e na contramão, quanto maior é sua descontinuidade, ou até mesmo suas quebras rítmicas, mais leves se tornam por se tratar apenas de poesia. De qualquer maneira, o peso da mensagem é tão grande quanto o peso de seu intrincamento.
Ferreira Gullar parece não criar um poema sobre o povo, mas apenas transcreve o que nasce dentro do próprio povo, em meio ao mundo, ao caos, sujeira e mazelas, uma flor que nasce, e Gullar apenas agarra esta flor para botá-la no papel, como se psicografasse algo que não vem dele, dando assim, mais veracidade aos seus versos, e afirma,
Meu povo e meu poema crescem juntos / como cresce no fruto / a árvore nova... / ... ao povo seu poema aqui devolvo / menos como quem canta / do que planta...”.
Nosso poeta transcende entre os extremos, como em a “Bela e a Fera”, sendo a Fera, mas sua beleza é sempre conceitual, o estético pode afastar um leitor desatento. Oras... Então me perguntam se em nenhum momento uma pessoa despreparada conseguirá alcançar ou ver beleza nesta Fera estilhaçada... Claro que verá, e como exemplo, concentração ao belíssimo poema, “Cantiga para não morrer”.
Quando você for se embora / moça branca como a neve, / me leve. / Se acaso você não possa / me carregar pela mão, / menina branca de neve, / me leve no coração. / Se no coração não possa / por acaso me levar, / moça de sonho e de neve, / me leve no seu lembrar. / E se aí também não possa / por tanta coisa que leve / já viva em seu pensamento, / menina branca de neve, / me leve no esquecimento”.
É claro que a beleza da poesia, leve, solta, bem rimada, longe de experimentações que só atrapalhariam a fluidez da mensagem, agrada qualquer tipo de leitor, mostrando assim, que algumas poesias de Gullar também “descem redondo”, não precisam de grandes concentrações para serem entendidas. Fica o leitor com a pura satisfação. O Belo que sai das entranhas e torna-se visível, mas pensemos, lembremos da Fera, e logo entramos em contato com suas entranhas para nos perdermos novamente, agora pela agonia sutil, ou aceitação desesperadora de uma pessoa que pode muito bem não considerá-lo de forma nenhuma, esquecendo-o por sua insignificância. Neste caso o Feio não está na estética, mas no sentimento tratado. Para alguns leitores, que além da obra, quisessem compreender ainda mais este sentimento de beleza e agonia, alcançaria ao escutar a mesma poesia cantada por Raimundo Fagner: Me Leve – Cantiga para não morrer.
Embora possa dizer que tantas desgraças caibam na poesia de Gullar, não são necessariamente as desgraças relatadas, temos que ponderar para não confundir este poeta com mais um poeta chorão e de coração dilacerado que chora sua bela donzela ou vontade de morrer que aflige seu coração. Não! O foco de Gullar é o povo, não o sofrimento, mas o sofredor. Ele afirma: “Só cabe no poema / o homem sem estômago / a mulher de nuvens / a fruta sem preço...”. Piadas à parte, algumas coisas são impagáveis, não cabem no poema, como Gullar afirma, “Não há vagas”, para todas as outras existem SuperCard ou seria OutroCard?
Toda brincadeira é perdoável, Gullar em nenhum momento critica de maneira fatídica, mostra que existem motivos para ser feliz. “Como dois e dois são quatro / sei que a vida vale a pena / embora o pão seja caro / e a liberdade pequena...”. Como se a teimosia pela felicidade não se deixasse abater por todas as injustiças, o que há de belo não será estragado pelo feio.
Quando pensamos nesta relação de beleza metafórica, chegamos a uma imagem que pode refletir, em dois sentidos, uma relação ainda mais profunda com isso, de uma das poesias mais profundas de Gullar, que parece se afastar das críticas, mas não da construção, “OVNI”:
Sou uma coisa entre coisas / O espelho me reflete / Eu (meus / olhos) / reflito o espelho / Se me afasto um passo / o espelho me esquece: / - reflete a parede / a janela aberta / (Eu guardo o espelho / a janela a parede / rosa / eu guardo a mim mesmo / refletido nele): / sou possivelmente / uma coisa onde o tempo / deu defeito”.
Peguemos esta poesia porque não há nada que mostre mais o que temos dentro de nós do que um espelho, pelo simples fato de vermo-nos sempre de modos diferentes, de acordo com nossa percepção de belo ou feio. E não fosse só a primeira imagem que espelhos nos trazem, ainda precisamos nos ater ao formato que a poesia foi construída, cortando frases ao meio, criando pausas, porque em cada pausa, existe nossa profunda reflexão sobre o que está proposto. Isso é Gullar, não importa apenas um grande pensamento passado, mas a forma influi em nossa percepção; sentimos o que foi passado.
Quando o poeta propõe aprofundamento em algum assunto; neste caso, o espelho, que se por um lado é inferior ao homem (OVNI) que consegue guardá-lo em sua mente, mesmo não estando a sua frente, por outro é superior, sempre refletirá, mesmo que guardado, e o homem, perecível pelo tempo sucumbirá; é um poeta que tenta aprofundar-se mais em si, em seu estado de poeta que na poesia, aprofundando-se em si, transforma o leitor em poeta para que também alcance seu entendimento.
Ferreira Gullar tira uma poesia crítica do meio do povo, para depois, criando grande vínculo pelo fato de tê-los representado, trazer o povo para suas outras poesias e com eles tentar se entender e ainda fazê-los se entender; como se este favor através da poesia social fosse o direito comprado para poder lançar seus leitores rumo às poesias mais densas que não dizem sobre o de fora, mas sobre o de dentro.
Temos aqui, belezas, rudezas, de um poeta e de um povo, que acabam emaranhadas. Todos se tornam parceiros e caminham por entre mazelas e esplendores poéticos, um aprendendo com o poeta a se elevar, e o artista aprendendo os motivos que não deixam um povo evoluir facilmente. Partes de um mesmo mundo: “Traduzir uma parte / na outra parte / - que é uma questão / de vida ou morte - / será arte?”.
Todos alcançam seus objetivos, todos traduzem o mundo.

Mais Informações: Ferreira Gullar

sábado, 24 de março de 2012

Jeremias, o Bom - Ziraldo

Há anos comprei um livro... Eu andava em um momento estranho na vida, onde questionava, chegando à vida adulta, o que era isso de ser bom ou não. Tudo o que eu queria era ser bom, quando passei diante de uma máquina de livros e comprei “Jeremias, o Bom” de Ziraldo, pequena obra prima deste quadrinista talentoso.
Eram tempos difíceis, eu estava rodeado de pessoas que colocavam minha bondade em teste diariamente, e eu, tímido, do tipo passado para trás, acaba por me render, e era sim feito de trouxa, quando um amigo querido disse que eu tinha que ser durão, mas eu não queria ser durão, eu queria se bom, apenas isso.
Foi uma leitura solitária, livro modesto, curto e com alguns quadrinhos realmente tocantes, era aquilo que eu queria para mim, lá estava o modelo de homem ideal para seguir, tudo bem que o mundo ao meu redor era um mundo que exigia malandragem, mas Jeremias me ajudava a pelo menos ser passado para trás e acreditar em minha dignidade.
Nunca vi personagem tão bom quanto Jeremias, acredito que, nos dias de hoje, “Jeremias, o Bom” é um livro que deveria ser entregue nas escolas, para todas as crianças, e nos trabalhos, para todos os adultos, e nas igrejas, para todos os fiéis; melhor que Jesus Cristo, melhor que qualquer filósofo moralista, melhor que qualquer verdade científica, qualquer discurso de mídia, tudo, Jeremias é o famoso “trouxa”, é o “Idiota” de Dostoievski, só que mais esperto, bem mais esperto, e bom, como esse homem é bom. Livro que hoje reencontrei, achei que estava perdido, reencontrei e lágrimas de alegria vieram ao meu rosto. Sou um cara utópico, cresci, mas não deixo de ser utópico, e Jeremias quebra qualquer distopia.
Quem é Jeremias? Personagem de Ziraldo, não segue o esteriótipo do homem bom fraquinho, pelo contrário, é forte, alto, grande, mas é careca e usa óculos, Jeremias é único em sua personalidade, simplicidade e capacidade de ajudar o próximo como se isso fosse emergencial, e não o faz pelos louros, faz porque é certo, sentiria-se até culpado caso não ajudasse. Enquanto pessoas passam ignorando mendigos, jogando míseras moedas, Jeremias faz mais, lança um bom dia, conversa com o pedinte e se vai, deu-lhe atenção e tratou como igual, poucos são os homens que tratam o próximo como igual independente de credo, inteligencia, classe social e outras formalidades.
Jeremias é o melhor manual de moralidade que já vi, é repleto de humor e humanidade, personalidade que não julga, alivia a dor, que, se possível, daria a própria vida para salvar quem quer que fosse. Jeremias infelizmente não existe, pode ser qualquer um, qualquer um que esteja disposto a abandonar para sempre o egoísmo e pensar no próximo. Jeremias não é cheio de frescuras e não me toques, não se sente ofendido, cansado talvez, mas nunca ofendido e não é idiota para ficar alheio dos prazeres da vida, é bom amante, sua mulher tratada como rainha fora e dentro da cama, porque ele, sim, ele é bom de cama.
O relacionamento de Jeremias com os pais também é especial, filho adulto, com pais separados, consegue proporcionar ao pai alegrias impensáveis e faz com que sua mãe se sinta a mulher mais feliz do mundo, ele não tem vergonha da família, pelo contrário, as pessoas de fora olham para ele com admiração, ninguém zomba de Jeremias, ele impõe respeito, claro, muitos abusam de sua boa vontade, mas piadinhas, isso nunca, nenhum comentário maldoso vem para se chocar com nosso herói. “Jeremias, o Bom” é o tipo de livro que devemos ler de tempos em tempos para recuperar nossa humanidade.

Para Comprar: Jeremias, o Bom
Mais Informações: Ziraldo

sexta-feira, 23 de março de 2012

Hino a Afrodite e Outros Poemas - Safo de Lesbos

Quando procurei pelo livro confesso que procurei porque vi uma pessoa conhecida usando de sobrenome a palavra “Safo”, então fui pesquisar e descobri que era o nome de uma poetiza antiga, bem antiga, antiquíssima, e lá estava minha surpresa, era uma personalidade que, entre tantas outras coisas, ajudou na propagação do termo Lésbica, por conta de suas poesias exaltando a beleza feminina, então, deu-se a nomeação tão conhecida “lesbianismo” ou “safismo”.
Tudo isso é uma maravilha, um deleite, adoro saber origem das coisas, porém, sejamos sinceros, ninguém inventou o ato de se apaixonar ou transar com pessoas do mesmo sexo; sexo oposto; sexo nenhum ou não se relacionar.
Falei tudo isso porque este livro, “Hino a Afrodite e Outros Poemas” lançado pela editora Hedra, é uma pequena obra necessária para aqueles que querem conhecer um pouco dos versos desta importante poetiza. Como muita coisa se perdeu, sobrando apenas fragmento do fragmento do fragmento, o livro, se se resumisse apenas aos versos de Safo, não alcançaria nem dez páginas, então, a saída que encontraram foi a explicação dos fragmentos e um estudo considerável sobre a vida irreconhecível dela. O que se sabe de Safo é o que os outros autores contaram, o que citaram, falaram sobre ela e muito pelo estudo da época, e quase 99% de análises de sua obra fragmentada, aí encontramos um grande problema, fica quase impossível conhecer quem era Safo. Entraríamos no questionamento sobre se é possível conhecer ou não o autor através de sua obra? Provavelmente muito se pode conhecer, mas nem toda obra é biográfica e muita coisa é colocada por uma necessidade estética da própria obra, isso quando não é totalmente ficcional, como acontecia ao versejarem sempre sobre os deuses e símbolos gregos, no caso, Afrodite e Eros.
O quanto tem de Lésbica uma mulher que verseja sobre a beleza de Afrodite e de suas amigas? Oras, não vejo motivos para questionamento de opção sexual do autor. Parece que na época, os poetas tinham como hábito cantarem poesias onde exaltavam a beleza, o amor, e seus deuses, logo, Safo, que tinha lá seus hábitos de versejar, também falava sobre a mesma coisa, apenas mais um poeta, o problema é que, estudos póstumos a colocaram como Lésbica, e aí desenrola-se tudo que já conhecemos.
Entendi que Safo era um tipo de preparadora, pelo pouco que se sabe, preparava mulheres para entrarem na vida de casada, ensinando afazeres domésticos e estas coisas mais técnicas da profissão “Dona do Lar”, por conta disso tinha que viver rodeada de amigas, e mesmo que não fosse por conta disso, uma mulher não pode ter amigas? Aqui vai um ponto ainda interessante sobre a possibilidade dela ter se relacionado sexualmente com suas colegas; parece que muitos homens iniciavam garotos sexualmente quando estes faziam a transição para a vida adulta, mas estavam longe de serem gays, isso era cultural, ou simplesmente fator irrelevante e natural, caso o mesmo acontecesse com as mulheres, pergunto, “Porque não?” e isso não faria de Safo uma lésbica.
Os fragmentos de Safo falam sobre beleza, amor, e evocam Afrodite para conseguir aquilo que quer, curioso porque quando fala de Eros, sempre o coloca como instrumento e não alguém que é chamado por representar algo no amor. Talvez Safo tivesse sim uma tendência, ou talvez, por reconhecer em Afrodite o símbolo maior, igual todos os outros poetas faziam, ela também a endeusava.
Pude conhecer o mito que envolve Safo, não por desmentir sua homossexualidade, mas por colocar este tema como algo que nunca saberemos. A poesia dela, por restar muito pouco é mais objeto de estudo deste mito sexual do que de beleza artística.